sábado, 10 de janeiro de 2009

Depois de tudo aquilo, apenas nós dois tentávamos em vão viver naquela casa. Todo aquele espaço só se mostrava cinzento pra mim; era como se dissesse que nós dois nunca seríamos capazes de trazer vida de verdade àquele lugar.

Desisti, afinal, de viver por quatro pessoas. Mas estava com medo de pedir companhia; esse medo se confundiu com o medo de ir sozinha. Encostei o ombro no batente e fitei a santa pendurada impiedosamente na parede. Coisa meio artesanal, meio industrial, de olhos díspares e cabelo claro.

De repente, parei de sentir dor. Tanto fez. Não conseguia sentir a raiva da casa, nem seu desespero para ficar completamente vazia. Antes vazia de todo que quase morta; a eutanásia do imóvel deixava evidente como todos ali tínhamos já tido suficiente dose de agonia.

Parecia que minha indiferença o atraíra. A porta da entrada rangeu e eu fiquei parada, como se não houvesse notado sua presença.

Meu irmão carregava uma mala listrada. Dois papéis finos nas mãos.

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