Como ela vê poesia e arte em tudo, até no fato de sermos órfãos, cheguei para buscá-la e não estranhei que me olhasse arrebatada, imóvel por alguns minutos. Deveria ver qualquer estranheza artística na partida que eu estava disposto a forçar.
Eu tinha colocado a casa à venda. Sem consultá-la, não estava nem aí. Já estava de saco cheio de vê-la se esfregando pelas paredes, com o olhar perdido. Corri do jornal para a rodoviária. Só tinha uma decisão difícil: pra onde ir. Quis, então, pensar em algo totalmente desprovido de referências, mas grande o suficiente, de modo que a esquisitice de Júlia não fosse interpretada como esquizofrenia. Não que eu duvive de ser justamente esse o caso.
Fomos não só por ela. Eu não lido bem com a morte. Estava resolvido a fazer de conta que ela não existia até ser descoberto por ela.
Na plataforma, não me separei de dois elementos: Júlia e minha câmera. Talvez agora elas começassem a se dar melhor; eu sempre disse à minha irmã que ela daria boas fotos. Mas acho que ela tem medo do meu olhar.
Eu mentira, já estivera naquele destino; antes de Júlia nascer.
Pra Belo Horizonte seguiram-se os pneus.
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