segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sifudição

Bom, foder foi sem dúvida algo que Julia não fez, pelo menos nos dois meses seguintes. Oportunidades de entrega eram uma constante, se você considera as propostas de homens sem banho há alguns meses.

Além de Amelie, Julia tinha finalmente feito um amigo na escola. Quando ele entrou no apartamento da moça pela primeira vez, viu só uma cama de casal desfeita, uma pia e louça empilhada. As paredes estavam forradas de fotos de pessoas apressadas. O irmão dela dormia desmaiado.

- Esse é o Ítalo - ela apontou.

Eric só encarou-o, com os olhos escondidos sob o travesseiro, apenas de cueca.

- Aqui do lado tem um puteiro, então não estranhe os barulhos... Ainda está cedo, mas nunca se sabe.

Ele tinha percebido que ela devia ser meio louca, mas a aparência daqiele lugar parecia maximizar a idéia. Eric se distraiu por algum tempo com as fotografias, e não ouviu Julia caindo no chão por cima de três livros de História. Quando ela voltou rindo do banheiro, ele piscou numa tentativa de clarear as idéias.

- Pronto, já achei meu dinheiro. Vamos?

Conforme desciam as escadas, ouviram gemidos sexuais censurados pelo culto evangélico no andar de baixo. Trombaram com Natasha na descida, que subia, vermelha e fluida, enquanto uma porta batia embaixo.

Julia nunca tinha bebido cerveja antes, Eric achou engraçado. O Banzai era receptivo o suficiente para uma iniciante; ele se distraiu na distração dela, observando o sinal da Augusto de Lima abrir e fechar.

Ítalo acordou com a porta se abrindo de repente, e no começo não se mexeu, convencido de que era Julia, mas um grito bem mais agudo o ensinou a nunca mais dormir seminu. Havia uma puta quase ruiva encostada contra a porta, e urros a seguiam do outro lado. Assim que Ítalo conseguiu perceber isso, a sequência seguiu rápido demais: a mulher correu pra cima da cama, segurando trapos de um vestido roxo que lhe caía, e um negro do tamanho de uma geladeira frost-free entrou no quarto, com uma faca. Numa rápida sucessão de segundos, Ítalo gritou, a puta gritou, o negro gritou.

No fim da história, Ítalo tinha uma câmera semiprofissional a menos, uma puta sem roupa que ele não tinha comido chorando no chuveiro, e precisava de uma fechadura nova.

Foi mais ou menos nesse ponto que Julia chegou, mencionou um primeiro beijo e correu pro banheiro a fim de vomitar.

Dessa forma, os dois conheceram Naomi.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Praça Sete

Durante algumas horas escuras de tédio, eu me divertia com idéias de vender o meu corpo, da exata mesma maneira de nossas caras vizinhas. Meu irmão invariavelmente ficava vermelho e me mandava calar a boca.

Sou incapaz de expressar a sensação agridoce de vida que subia do cimento belorizontino. Depois de dois assaltos fracassados, os desocupados dos entornos da Afonso Pena pararam de me seguir.

Ítalo correu pelas subidas da rua Espírito Santo até me arrumar uma escola. Algo tão prosaico me dava uma idéia de empréstimo de vida alheia. Ele comprou dois cadernos novos, algumas canetas, uma agenda que eu nunca usei para anotar compromissos.

Um dia, conheci Amelie, a puta mais barata entre as nossas vizinhas. Ela me pediu um cigarro, mesmo que estivesse perfeitamente ciente de que eu não fumava. Contudo, depois de ouvir a pergunta, comecei a considerar a idéia.

-Qual seu nome de verdade? - perguntei um dia a ela.

Amelie se esticou, acho, pra ver as horas no relógio da prefeitura, mas não conseguiu.

-A troco de quê você quer o meu nome? - ela perguntou, desconfiada, mudando a perna de apoio, para aquela que usava o salto mais alto.

-Então por que essa sua perna é menor do que aquela? - tentei, de novo.

A Praça Sete não era o melhor lugar pra mim, às dez da noite. Mas Ítalo não chegava do trabalho novo ali na Savassi antes das onze.

-Porque meu pai me espancava pra caralho, e quebrou uma delas de acordo quando eu era pirralha. - ela respondeu.

-É ruim ser puta?

Amelie gastou um precioso segundo me encarando. Eu sabia que aquele segundo era caro, visto que um carro a menos que ela encarasse poderia lhe atrasar o ganho da noite. Seu top amarelo me lembrava um ipê prestes a cair da árvore, com pedaços de pano amarelo pros lados, por pouco cobrindo os bicos dos peitos já em franca queda (protesto pelo uso constante, desconfio). Ela bufou, afinal resolvendo qual resposta me dar, e puxou uma mecha do cabelo mal alisado por cima da testa, enrolou-o num dedo com o olhar fixo no gol prateado parado no sinal vermelho.

-Vai se fuder, pirralha.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tão logo encontraram o fatídico ponto da rua Rio de Janeiro, Ítalo conteve um pedido de desculpas a Júlia. Indiscutivelmente, seu dinheiro era pouco, mas aquilo... era quase pão durismo. Ela não reclamou, apesar dele estar preparado pra se defender.

Cinco andares mambembes deixavam evidente que Belo Horizonte perguntava aos dois irmãos se eles estariam tão certos assim de suas aventuras. Ítalo agradeceu a si mesmo por ter trazido menos do mínimo.

-Quanto? - um olhar suado de voz sedenta voltou-se bruscamente para Júlia logo no primeiro lance de escadas; às suas vistas, ela era o ser mais limpo que ele via em dias.

Ítalo, reprimindo um palavrão que certamente sairia-se péssimo cartão de visitas, empurrou o bêbado. A música alta no segundo andar não era uma dica apetitosa para os dois... Um sorriso convidativo na porta do 201 o causou um arrepio misturado entre ensaio de tesão e asco.

Sim, eles tinham se mudado para um puteiro.

Ele percebeu com grande susto que tudo no segundo andar cheirava a esperma. Inclusive a chave, que a síndica, Natasha, lhe entregou. Era velha, gorda, vestia-se feito cigana, mas ainda tentava seduzir desesperadamente. Ítalo não reclamou do puteiro, reconhecendo-a como a dona... Júlia só abriu a boca quando a porta do 203 fechou-se às suas costas. 

-Bom, tudo menos morte... Você me levou muito a sério.

Adormeceram tentando calcular, pelos gritos e pancadas, o número de putas e o número de clientes diferentes. Ítalo ensaiou um pedido de desculpas, mas Júlia esboçou um sorriso que ele chamaria de pervertido, se não a conhecesse.

-Vida, irmãozinho. Por incrível que pareça!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Arrival - Departure

O sol mineiro não brilha de maneira diferente. Tem gente que acredita que o concreto, o nome e a posição de município exercem poder sobre as identidades humanas. A fala mais lenta e mais confortável dos mineiros pela rodoviária enchia meus ouvidos de promessas: você é agora uma de nós, eles diziam. O mero fato de nos escolher te torna nós. Parte desse pessoal de sorrisos catársicos habita cartazes do prefeito eleito, no qual eu não votei, mas ainda assim resolverá os problemas de transporte que eu ainda nem sei que tenho.

Meu flâneur me puxou pelo braço com a pressa falsa de quem sempre andou entre sinais de trânsito. A mala listrada ameaçou cair das minhas mãos e desencadeou, assim, outra série de ameaças: a da porta da rodoviária jamais se fechar, como as pernas de uma prostituta de horário disputado; a do homem de mochila vermelha vindo de encontro a nós ter notado, com felicidade, o meu embasbacamento diante do estacionamento e do sol de cartolina em laranja me dando as boas vindas à cidade; a de meu irmão ter percebido e ido de encontro ao desconhecido.

A poucos passos de uma praça, os dois se encontraram Ítalo, poético nome para tão prático irmão, franziu toda a testa e me abraçou. O célebre assaltante imaginário continuou andando para as pernas abertas das plataformas.

-Ipatinga, Valadares!

-Sete Lagoas!

-Ouro Preto, Mariana!

O tom de voz universal dos comerciantes me entreteu por tempo suficiente para que eu não visse Ítalo perguntando ao Ouro Preto Mariana onde ficava a Rua Rio de Janeiro.

-Guarda essa câmera, moço, vão de roubar.

A informação desnecessária foi a introdução da nossa cruzada entre índios e estados. A sensação da adrenalina matando as lembranças dos mortos me fez sentir tão próxima da vida quanto eu era capaz de suportar.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Anti-word.

Eu não gosto de poesia. Minha irmã é que tem todos os genes artísticos. Não sei se ela se orgulha disso. Vive dizendo: "arte é só um abrir de olhos". Diz que está em todos. Discordo. Se fosse assim, eu também seria capaz.

Como ela vê poesia e arte em tudo, até no fato de sermos órfãos, cheguei para buscá-la e não estranhei que me olhasse arrebatada, imóvel por alguns minutos. Deveria ver qualquer estranheza artística na partida que eu estava disposto a forçar.

Eu tinha colocado a casa à venda. Sem consultá-la, não estava nem aí. Já estava de saco cheio de vê-la se esfregando pelas paredes, com o olhar perdido. Corri do jornal para a rodoviária. Só tinha uma decisão difícil: pra onde ir. Quis, então, pensar em algo totalmente desprovido de referências, mas grande o suficiente, de modo que a esquisitice de Júlia não fosse interpretada como esquizofrenia. Não que eu duvive de ser justamente esse o caso.

Fomos não só por ela. Eu não lido bem com a morte. Estava resolvido a fazer de conta que ela não existia até ser descoberto por ela.

Na plataforma, não me separei de dois elementos: Júlia e minha câmera. Talvez agora elas começassem a se dar melhor; eu sempre disse à minha irmã que ela daria boas fotos. Mas acho que ela tem medo do meu olhar.

Eu mentira, já estivera naquele destino; antes de Júlia nascer.

Pra Belo Horizonte seguiram-se os pneus.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Depois de tudo aquilo, apenas nós dois tentávamos em vão viver naquela casa. Todo aquele espaço só se mostrava cinzento pra mim; era como se dissesse que nós dois nunca seríamos capazes de trazer vida de verdade àquele lugar.

Desisti, afinal, de viver por quatro pessoas. Mas estava com medo de pedir companhia; esse medo se confundiu com o medo de ir sozinha. Encostei o ombro no batente e fitei a santa pendurada impiedosamente na parede. Coisa meio artesanal, meio industrial, de olhos díspares e cabelo claro.

De repente, parei de sentir dor. Tanto fez. Não conseguia sentir a raiva da casa, nem seu desespero para ficar completamente vazia. Antes vazia de todo que quase morta; a eutanásia do imóvel deixava evidente como todos ali tínhamos já tido suficiente dose de agonia.

Parecia que minha indiferença o atraíra. A porta da entrada rangeu e eu fiquei parada, como se não houvesse notado sua presença.

Meu irmão carregava uma mala listrada. Dois papéis finos nas mãos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Além de todos esses tropeços, tenho sempre muito mais a falar. Além de todo o álcool, algumas idéias não vão embora com a chegada da sobriedade. Prometo só te contar o que me implorar pra ser dito.

Eis a fala: andei pensando em cadáveres. Dinheiro de mortos, casas de mortos, móveis e roupas de mortos. Tudo passa adiante ainda infectado com o passado... Não são todos que percebem, creio que ninguém atina que o lençol continua cheirando o mofo do cadáver amado na pífia tentativa de não se esquecer de seu presunto.

Ah, minha escolha vocabular não quer necessariamente dizer que os sentimentos inanimados não têm sua relevância, ao contrário. A discrição dessas emoções deveria é nos ensinar uma lição, ainda que eu não tenha certeza do seu sentido.

Talvez se eu não saiba, quer dizer que escrevi ainda cedo demais.

É que os cadáveres da minha vida me afetam quase tanto quanto os vivos. Às vezes choro de saudade da consciência humana junto deles! Em meu antigo quarto, menor e mais irrelevante, eles foram se alojando, cadáver por cadáver, enquanto eu observava meu sobrenome ir emagrecendo...

A santa que observa minha cama... Ela observou a morte acariciar meus avós. Vou me mudar daqui. Meu último companheiro... meu derradeiro flanêur de ônibus... Será que ele irá comigo?