Durante algumas horas escuras de tédio, eu me divertia com idéias de vender o meu corpo, da exata mesma maneira de nossas caras vizinhas. Meu irmão invariavelmente ficava vermelho e me mandava calar a boca.Sou incapaz de expressar a sensação agridoce de vida que subia do cimento belorizontino. Depois de dois assaltos fracassados, os desocupados dos entornos da Afonso Pena pararam de me seguir.
Ítalo correu pelas subidas da rua Espírito Santo até me arrumar uma escola. Algo tão prosaico me dava uma idéia de empréstimo de vida alheia. Ele comprou dois cadernos novos, algumas canetas, uma agenda que eu nunca usei para anotar compromissos.
Um dia, conheci Amelie, a puta mais barata entre as nossas vizinhas. Ela me pediu um cigarro, mesmo que estivesse perfeitamente ciente de que eu não fumava. Contudo, depois de ouvir a pergunta, comecei a considerar a idéia.
-Qual seu nome de verdade? - perguntei um dia a ela.
Amelie se esticou, acho, pra ver as horas no relógio da prefeitura, mas não conseguiu.
-A troco de quê você quer o meu nome? - ela perguntou, desconfiada, mudando a perna de apoio, para aquela que usava o salto mais alto.
-Então por que essa sua perna é menor do que aquela? - tentei, de novo.
A Praça Sete não era o melhor lugar pra mim, às dez da noite. Mas Ítalo não chegava do trabalho novo ali na Savassi antes das onze.
-Porque meu pai me espancava pra caralho, e quebrou uma delas de acordo quando eu era pirralha. - ela respondeu.
-É ruim ser puta?
Amelie gastou um precioso segundo me encarando. Eu sabia que aquele segundo era caro, visto que um carro a menos que ela encarasse poderia lhe atrasar o ganho da noite. Seu top amarelo me lembrava um ipê prestes a cair da árvore, com pedaços de pano amarelo pros lados, por pouco cobrindo os bicos dos peitos já em franca queda (protesto pelo uso constante, desconfio). Ela bufou, afinal resolvendo qual resposta me dar, e puxou uma mecha do cabelo mal alisado por cima da testa, enrolou-o num dedo com o olhar fixo no gol prateado parado no sinal vermelho.
-Vai se fuder, pirralha.