quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Arrival - Departure

O sol mineiro não brilha de maneira diferente. Tem gente que acredita que o concreto, o nome e a posição de município exercem poder sobre as identidades humanas. A fala mais lenta e mais confortável dos mineiros pela rodoviária enchia meus ouvidos de promessas: você é agora uma de nós, eles diziam. O mero fato de nos escolher te torna nós. Parte desse pessoal de sorrisos catársicos habita cartazes do prefeito eleito, no qual eu não votei, mas ainda assim resolverá os problemas de transporte que eu ainda nem sei que tenho.

Meu flâneur me puxou pelo braço com a pressa falsa de quem sempre andou entre sinais de trânsito. A mala listrada ameaçou cair das minhas mãos e desencadeou, assim, outra série de ameaças: a da porta da rodoviária jamais se fechar, como as pernas de uma prostituta de horário disputado; a do homem de mochila vermelha vindo de encontro a nós ter notado, com felicidade, o meu embasbacamento diante do estacionamento e do sol de cartolina em laranja me dando as boas vindas à cidade; a de meu irmão ter percebido e ido de encontro ao desconhecido.

A poucos passos de uma praça, os dois se encontraram Ítalo, poético nome para tão prático irmão, franziu toda a testa e me abraçou. O célebre assaltante imaginário continuou andando para as pernas abertas das plataformas.

-Ipatinga, Valadares!

-Sete Lagoas!

-Ouro Preto, Mariana!

O tom de voz universal dos comerciantes me entreteu por tempo suficiente para que eu não visse Ítalo perguntando ao Ouro Preto Mariana onde ficava a Rua Rio de Janeiro.

-Guarda essa câmera, moço, vão de roubar.

A informação desnecessária foi a introdução da nossa cruzada entre índios e estados. A sensação da adrenalina matando as lembranças dos mortos me fez sentir tão próxima da vida quanto eu era capaz de suportar.

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