quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Além de todos esses tropeços, tenho sempre muito mais a falar. Além de todo o álcool, algumas idéias não vão embora com a chegada da sobriedade. Prometo só te contar o que me implorar pra ser dito.

Eis a fala: andei pensando em cadáveres. Dinheiro de mortos, casas de mortos, móveis e roupas de mortos. Tudo passa adiante ainda infectado com o passado... Não são todos que percebem, creio que ninguém atina que o lençol continua cheirando o mofo do cadáver amado na pífia tentativa de não se esquecer de seu presunto.

Ah, minha escolha vocabular não quer necessariamente dizer que os sentimentos inanimados não têm sua relevância, ao contrário. A discrição dessas emoções deveria é nos ensinar uma lição, ainda que eu não tenha certeza do seu sentido.

Talvez se eu não saiba, quer dizer que escrevi ainda cedo demais.

É que os cadáveres da minha vida me afetam quase tanto quanto os vivos. Às vezes choro de saudade da consciência humana junto deles! Em meu antigo quarto, menor e mais irrelevante, eles foram se alojando, cadáver por cadáver, enquanto eu observava meu sobrenome ir emagrecendo...

A santa que observa minha cama... Ela observou a morte acariciar meus avós. Vou me mudar daqui. Meu último companheiro... meu derradeiro flanêur de ônibus... Será que ele irá comigo?

sábado, 20 de dezembro de 2008

Os ônibus são um evento de espionagem galopante.
Vi uma mulher, pobre, velha, com dois meninos correndo no ônibus. Muito curiosamente, não fiquei desconfortável com os pirralhos, que é o que seria esperado. Comecei a chorar quando vi a expressão da mãe. Eles corriam e gritavam; ela se sentou, juntos os pés de havaianas e olhou séria, rígida pra eles; de repente, o rosto amoleceu, o lábio dela começou a se virar num sorriso... Os olhos se estreitaram porque tinha a prova cabal de algo muito precioso escapando por sua íris. O sorriso durou pouco, nem dois minutos; ela mandou os meninos ficarem quietos, voltou à expressão séria. Alguma coisa me doeu forte e eu desviei os olhos pra Praça Sete. Não os vi descendo no próximo ponto.

Esses encontros dolorosos acontecem com mais e mais freqüência, isso me assusta. Senti uma dor que não era minha. Uma nesga de amor que não era meu, quando eu duvidava que pudesse ainda sentir alguma coisa, defendendo-me de quem não me ataca.
Mas ainda há de atacar.

Queria não ver aquela expressão de quem baixa a guarda, porque me espelhei nela. Ao mesmo tempo, dores muito maiores do que as minhas próprias - auge egoísta pelo qual se mede tudo - me atormentaram até o momento em que pus os pés dentro de casa, e mais uma vez agora, que escrevo. Provavelmente, pra não me esquecer que as pessoas amam.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Que papo ruim

Ser literário fica sendo, mais que tudo, desafio.
Você não nasce literário, a não ser que seja personagem.

Você não publica sem um mínimo de QI.
Ser o quê, então, além de personagem, para ter talvez qualquer nesga de significado?
Vou brincar de alter ego por aqui. Enganar tantos quanto eu conseguir. 

Se você não entende, eu já explico.
Se não entendeu, prometo praticar mais.

"Conhecendo em segredo esssa condição, todo escritor medíocre procura mascarar seu estilo próprio e natural."
Schopenhauer (e sim, nem eu nem a escritora medíocre sabem ABNT).