Vi uma mulher, pobre, velha, com dois meninos correndo no ônibus. Muito curiosamente, não fiquei desconfortável com os pirralhos, que é o que seria esperado. Comecei a chorar quando vi a expressão da mãe. Eles corriam e gritavam; ela se sentou, juntos os pés de havaianas e olhou séria, rígida pra eles; de repente, o rosto amoleceu, o lábio dela começou a se virar num sorriso... Os olhos se estreitaram porque tinha a prova cabal de algo muito precioso escapando por sua íris. O sorriso durou pouco, nem dois minutos; ela mandou os meninos ficarem quietos, voltou à expressão séria. Alguma coisa me doeu forte e eu desviei os olhos pra Praça Sete. Não os vi descendo no próximo ponto.
Esses encontros dolorosos acontecem com mais e mais freqüência, isso me assusta. Senti uma dor que não era minha. Uma nesga de amor que não era meu, quando eu duvidava que pudesse ainda sentir alguma coisa, defendendo-me de quem não me ataca.
Mas ainda há de atacar.
Queria não ver aquela expressão de quem baixa a guarda, porque me espelhei nela. Ao mesmo tempo, dores muito maiores do que as minhas próprias - auge egoísta pelo qual se mede tudo - me atormentaram até o momento em que pus os pés dentro de casa, e mais uma vez agora, que escrevo. Provavelmente, pra não me esquecer que as pessoas amam.
"Provavelmente, pra não me esquecer que as pessoas amam."
ResponderExcluirIsso foi tão frase de final de livro bom.