Meu flâneur me puxou pelo braço com a pressa falsa de quem sempre andou entre sinais de trânsito. A mala listrada ameaçou cair das minhas mãos e desencadeou, assim, outra série de ameaças: a da porta da rodoviária jamais se fechar, como as pernas de uma prostituta de horário disputado; a do homem de mochila vermelha vindo de encontro a nós ter notado, com felicidade, o meu embasbacamento diante do estacionamento e do sol de cartolina em laranja me dando as boas vindas à cidade; a de meu irmão ter percebido e ido de encontro ao desconhecido.
A poucos passos de uma praça, os dois se encontraram Ítalo, poético nome para tão prático irmão, franziu toda a testa e me abraçou. O célebre assaltante imaginário continuou andando para as pernas abertas das plataformas.
-Ipatinga, Valadares!
-Sete Lagoas!
-Ouro Preto, Mariana!
O tom de voz universal dos comerciantes me entreteu por tempo suficiente para que eu não visse Ítalo perguntando ao Ouro Preto Mariana onde ficava a Rua Rio de Janeiro.
-Guarda essa câmera, moço, vão de roubar.
A informação desnecessária foi a introdução da nossa cruzada entre índios e estados. A sensação da adrenalina matando as lembranças dos mortos me fez sentir tão próxima da vida quanto eu era capaz de suportar.