Eis a fala: andei pensando em cadáveres. Dinheiro de mortos, casas de mortos, móveis e roupas de mortos. Tudo passa adiante ainda infectado com o passado... Não são todos que percebem, creio que ninguém atina que o lençol continua cheirando o mofo do cadáver amado na pífia tentativa de não se esquecer de seu presunto.
Ah, minha escolha vocabular não quer necessariamente dizer que os sentimentos inanimados não têm sua relevância, ao contrário. A discrição dessas emoções deveria é nos ensinar uma lição, ainda que eu não tenha certeza do seu sentido.
Talvez se eu não saiba, quer dizer que escrevi ainda cedo demais.
É que os cadáveres da minha vida me afetam quase tanto quanto os vivos. Às vezes choro de saudade da consciência humana junto deles! Em meu antigo quarto, menor e mais irrelevante, eles foram se alojando, cadáver por cadáver, enquanto eu observava meu sobrenome ir emagrecendo...
A santa que observa minha cama... Ela observou a morte acariciar meus avós. Vou me mudar daqui. Meu último companheiro... meu derradeiro flanêur de ônibus... Será que ele irá comigo?